Gazeta do
Ipiranga
02/05/2008
Isabela, nossa
esperança!

Às 23h30, do dia 29 de março, Isabella
Nardoni , 5, cai do sexto andar sobre o gramado em frente ao Edíficio London,
Zona Norte de São Paulo. Mais uma vez, o país assistiu a um crime cruel e
bárbaro. A morte da menina que chegou a ser socorrida, mas morre pouco depois
causou comoção pelo país e deixou a população perplexa. A reportagem de Gazeta
do Ipiranga conversou esta semana com o Psicólogo, Supervisor Clínico e Mestre
em Psicologia pela USP, Alexandre Rivero sobre este caso tão desumano que abalou
o país.
De acordo com Rivero, compreender um crime tão cruel é um desafio para todos. “A
conclusão da perícia no inquérito é alarmante. A figura de um pai jogando uma
filha pela janela nos maltrata a alma. O pai assume em nossa cultura a figura do
protetor. Lembrei-me de maneira contrastante, por alguns instantes, de um grande
incêndio em São Paulo, em que um pai joga um filho num parapeito para salvá-lo
expondo-se a uma fumaça sufocante.
A possível versão da polícia de que Ana Carolina Jatobá agrediu a menina de
forma violenta no carro, antes de chegar ao edifício nos faz imaginar como a
pequena Isabela deve ter se sentido”, declarou.
Como compreender que alguém muito maior, mais forte, ocupando um lugar de “mãe”
investe contra uma criança indefesa?
O psicólogo enfatiza que sobre forte emoção, podemos sofrer um seqüestro de
nossas funções mentais superiores (memória, pensamento lógico, auto-controle,
atenção...), e que existem pessoas mais predispostas a acessos de agressividade
de maneira desproporcional com a situação vivida. Após o acesso fica
envergonhado, culpa-se. Alterações do humor, processos depressivos podem
potencializar atitudes de ira, irritabilidade e agressão. “A experiência
psicótica produz uma desorganização na percepção, do comportamento, delírios e
alucinações distorcem a realidade; conduzindo muitas vezes o adoecido para
caminhos de destruição de si mesmo e do outros”, disse.
Alexandre Rivero comentou que nossa sociedade parece estar adoecida pela
psicopatia em larga medida, o transtorno anti-social parece generalizar-se,
talvez daí tamanha comoção. “Este transtorno caracteriza-se pela incapacidade de
adequação as normas sociais, propensão para enganar, obter vantagens pessoais,
impulsividade, agressividade física, desrespeito pela segurança própria ou
alheia, irresponsabilidade num compromisso (profissional e financeiro), ausência
de remorsos com indiferença ou racionalizações por ter ferido, maltratado ou
roubado alguém”.
O psicólogo ressaltou que nossa sociedade tem sido marcada por “pequenos crimes
no cotidiano”, que parecem abalar a estrutura psíquica das pessoas. Banalizou-se
a corrupção pública, a mentira, a esperteza, a quebra de combinados. O princípio
da impulsividade como caminho da felicidade, está presente no marketing “consuma
e serás feliz”, na expressão desenfreada do consumo do prazer a qualquer custo,
no uso e descarte de pessoas, no viver de momentos ao invés de realizar um
sentido de vida.
Segundo ele, parece que esta mesma sociedade, que todos nós fazemos parte está
gritando para que seja punida a atitude anti-social. Ele crê que estamos
cansados de abusos a nossa dignidade. “A pequena Isabela talvez represente o que
há de profundamente bom em nós, a honestidade, a esperança, o carinho, a
alegria. Queremos dar um basta ao cinismo social, a violência moral e
física.Talvez Isabela seja uma mártir para nos compreendermos e lutarmos por uma
sociedade mais responsável e compromissada com valores pró-vida”, finalizou.